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Sebastião da Gama e a serra da Arrábida

Nascido em Vila Nogueira de Azeitão a 10 de abril de 1924, Sebastião da Gama terá problemas de saúde que, por indicação médica, o levam ao ar puro da serra da Arrábida no concelho de Setúbal. Rodeado por todas as tonalidades de verde, com o mar ao fundo, escreve verdadeiros hinos à natureza e desenvolve uma consciência ambiental. Em defesa do seu “paraíso” que começava a ser destruído pela desflorestação e pelo asfalto das estradas, lança um apelo que, em 1948, leva à fundação da Liga para a Proteção da Natureza, a primeira associação ambientalista portuguesa e da península ibérica.

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Sebastião da Gama – Diário

“Isto é quase um diário íntimo e se digo quase é porque, apesar de tudo, sei muito bem que outros, que não só eu, o vão ler, e isso, que não obsta a que sejam sinceras todas as minhas palavras e verdadeiras todas estas histórias, me impede de contar certas coisas que terei pudor de contar seja a quem for.”

Sebastião da Gama, Diário

Nos tempos conturbados em que vivemos, o Diário de Sebastião da Gama (passou em 2008 o cinquentenário da sua publicação póstuma) pode constituir, para educadores e educandos, uma lufada de ar fresco suscetível de a todos ajudar a levar o barco a bom porto.

José H. Barros-Oliveira, Revista Portuguesa de Pedagogia

Sebastião da Gama: Poeta e Professor

“Trata-se de um professor competente, totalmente centrado nos alunos, íntegro como pessoa humana, amigo dos alunos, como uma espécie de pai, compreensivo e respeitador da sua liberdade, sabendo levar a disciplina com bons modos e métodos, corrigindo sem ofensa. E realmente os alunos aprendiam com métodos ativos, fazendo-os participar, inventar e ler textos. E tanta coisa se aprendia para além da gramática…”

Cada vez me apetece menos classificar os rapazes, dar-lhes notas, pelo que eles «sabem», Eu não quero (ou dispenso) que eles metam coisas na cabeça; não é para isso que eu dou aulas. O saber – diz o povo – não ocupa lugar; pois muito bem; que eles saibam, mas que o saber não ocupe lugar, porque o que vale, o que importa (e para isso pode o saber contribuir, só contribuir) é que eles se desenvolvam, que eles cresçam, que eles saibam «resolver», que eles possam perceber.

Sebastião da Gama, Diário

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Sebastião da Gama, Professor e Poeta

Nasci para ser ignorante…

Nasci para ser ignorante
mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.

Que remédio? Obedeci.
Há já três lustros que estudo.
Aprender, aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.

Perdi o nome às Estrelas,
aos nossos rios e aos de fora.
Confundo fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.

Mas passo dias inteiros
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.

Rebrilha sempre uma Estrela
por sobre o meu parapeito;
pois não sou eu que me deito
sem ter falado com ela.

Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
as crismaram os doutores.

No entanto sou promovido,
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.

O pior é se um director
espreita p’la fechadura:
lá se vai licenciatura
se ouve as lições do doutor.

Lá se vai o ordenado
de tuta-e-meia por mês.
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.

Se me não lograr o fado
porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado,

enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem.

Sebastião da Gama

Sado2

Podes ouvir este poema, musicado por Carlos do Carmo, na voz de Ana Moura ou de Amália Rodrigues

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Poesia de Sebastião da Gama

Da minha janela

Da minha janela
vê-se a Poesia.

Não te digo, não,
se é bonita ou feia,
se é azul ou branca,
nem que formas tem.

Queres conhecê-la?
Deixa o teu bordado,
vem para o meu lado,
que já podes vê-la
com teus próprios olhos. 

Da minha janela
vê-se a Poesia…

Outro que te diga
se é bonita ou feia.

Sebastião da Gama, Cabo da Boa Esperança

pelo sonho é que vamos

O sonho

 

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos, não chegamos?

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama, Pelo sonho é que vamos

Quando eu nasci

Pequeno Poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais…
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…

Sebastião da Gama, in ‘Antologia Poética’

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Sebastião da Gama

Sebastião da Gama

Sebastião da Gama licenciou-se em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1947.

Foi professor em Lisboa, na Escola Industrial e Comercial Veiga Beirão, em Setúbal, na Escola Industrial e Comercial (atual Escola Secundária Sebastião da Gama) e, em Estremoz, na Escola Industrial e Comercial local.

Colaborou nas revistas “Mundo Literário” (1946-1948), “Árvore” e “Távola Redonda”.

A sua obra encontra-se ligada à Serra da Arrábida, onde vivia e que tomou por motivo poético de primeiro plano (desde logo no seu livro de estreia, Serra-Mãe, de 1945.

Arrábida

Uma carta sua, enviada em agosto de 1947, para várias personalidades, a pedir a defesa da Serra da Arrábida, constituiu a motivação para a criação da Liga para a Proteção da Natureza, em 1948, a primeira associação ecologista portuguesa.

O seu Diário, editado postumamente, em 1958, é um interessantíssimo testemunho da sua experiência como docente e uma valiosa reflexão sobre o ensino.

No dia 1 de junho de 1999, foi inaugurado em Vila Nogueira de Azeitão, o Museu Sebastião da Gama, destinado a preservar a memória e a obra do Poeta da Arrábida, como era também conhecido.

Faleceu precocemente aos 27 anos, vitima de tuberculose renal, de que sofria desde adolescente.

In Wikipédia

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