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Histórias com ciência na biblioteca escolar

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Numa parceria da Universidade de Aveiro com a Rede de Bibliotecas Escolares, a iniciativa “Histórias com ciência na biblioteca escolar”, implementada no ano letivo anterior nas escolas secundárias de Aveiro, ofereceu, neste ano letivo, um ciclo de conferências na área da História das Ciências às escolas do concelho de Ílhavo.

Com esta iniciativa, pretende-se promover a divulgação científica, nomeadamente a investigação realizada na UA, e alargar a cultura científica do público pré-universitário.

Na Escola Secundária da Gafanha da Nazaré, os alunos do ensino secundário assistiram a três conferências. A primeira, intitulada “As plantas na Lírica e na Épica de Camões”, decorreu no dia 12 de janeiro e teve como orador o Doutor Jorge Paiva, professor e investigador do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra. Especialista na área da Biodiversidade e uma referência na defesa do Ambiente, presenteou-nos com as suas histórias e vivências em vários pontos do mundo e demonstrou como a ciência e a literatura se podem cruzar no seu exaustivo estudo sobre as plantas mencionadas nos poemas de Camões e na sua epopeia, Os Lusíadas.

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No dia 10 de fevereiro, recebemos a Professora Doutora Isabel Malaquias, docente do Departamento de Física da Universidade de Aveiro e investigadora do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na formação de formadores, que nos veio falar do fonógrafo, o primeiro aparelho capaz de gravar e produzir sons, invenção do século XIX. Numa época de facilidade em termos de comunicação e de reprodução de som e imagem, foi interessante revisitar o início da gravação sonora e o impacto que teve na sociedade.

fonografo

No dia 21 de fevereiro, falou-se de Matemática e da forma como esta disciplina ajudou a resolver problemas históricos de diferentes épocas. Contámos com a presença do professor Hélder Pinto, do grupo de História da Matemática do Centro de Investigação e Desenvolvimento em Matemática e Aplicações da Universidade de Aveiro, que demonstrou a presença da Matemática em situações históricas e do dia a dia e apresentou as Varas de Napier e de Genaille-Lucas, antecessoras das atuais máquinas de calcular.

Paula Rocha

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Camões e o Amor

Em fevereiro, celebramos Camões e o AMOR!

“Ah, o amor…

que nasce não sei onde,

vem não sei como

e dói não sei porquê.”

Luís de Camões

Luís de Camões

Desde sempre presente na nossa literatura, cantado por trovadores e poetas, é com Camões que o Amor é celebrado em todo o seu esplendor.

O Poeta canta o amor platónico, a saudade, o destino e a beleza suprema, não o amor a uma mulher qualquer, mas o amor à mulher ideal que carrega em si toda universalidade do conceito de perfeição. Da mesma forma, o poeta busca descrever o amor, não um amor necessariamente vivido, mas um amor idealizado, desejado e que expresse um sentimento absoluto, superior.

Mas canta também o amor contraditório, marcado pelo uso das antíteses e pelo ideal racionalista da universalidade; o amor platónico e o amor cortês, marcados pela idealização da mulher como ser divino que serve de ponte para que o homem alcance a plenitude da alma por meio do amor puro; o amor carnal em oposição a esses primeiros, mostrando que mesmo que o homem deseje esse amor espiritual, ele também deseja ver a sua amada corporalmente, contradição essa marcada pela própria experiência amorosa de Camões.

Enfim, independentemente da conceção de amor adotada, o que chama a atenção na lírica camoniana é a “arte e o engenho” com que Camões escreve os seus poemas: seguiu a estética clássica baseada nos modelos greco-latinos, sofreu a influência de Petrarca, mas imprimiu a sua genialidade, a sua subjetividade a cada soneto, justificando assim ser considerado o primeiro grande poeta da Língua Portuguesa.

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

Rosas e corações

Amor, que o gesto humano na alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera, num momento
De lágrimas de honesta piedade,
Lágrimas de imortal contentamento.

Luís de Camões

Amor

Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre está? ou quem isento?
Que alma, que razão, que entendimento
Em ver-vos se não rende e obedece?

Que mor glória na vida se oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se não sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
Contínuo vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso.

Em mim, Senhora, podeis ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.

Luís de Camões

Coração e música

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que Amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia, e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho, e arte.

Luís de Camões

Olhos verdes

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,

De ervas vos mantendes
Que traz o Verão
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gado que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;

Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Ua graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E, pois nela vivo,
É força que viva.

Luís de Camões

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Textos de Amor

Red Hearts Valentine' Day 1

O Amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

                               Fernando Pessoa

Dois corações, feitas de rosas de papel

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

Amar é… 

sorrir por nada e ficar triste sem motivos
é sentir-se só no meio da multidão,

é o ciúme sem sentido,
o desejo de um carinho;
é abraçar com certeza e beijar com vontade,
é passear com a felicidade,
é ser feliz de verdade!

Albert Camus

Amor é fogo…

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

Assim o Amor

Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa

Sophia de Mello Breyner Andresen

Urgentemente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

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