Eugénio de Andrade

Eugénio 1

Eugénio de Andrade é o pseudónimo de José Fontainhas.

Nasceu a 19 de janeiro de 1923, na Póvoa de Atalaia (Fundão), e morreu a 13 de junho de 2005, no Porto.

Em 1932 mudou-se para Lisboa com a sua mãe, figura importante na sua vida. Estudou no Liceu Passos Manuel e na Escola Técnica Machado de Castro. Exerceu funções como inspetor administrativo do Ministério da Saúde durante 35 anos. Foi também tradutor, ensaísta, colaborou em algumas publicações e prefaciou antologias poéticas.

Em 1940 publicou o seu primeiro livro, Narciso, e em 1948 publicou As mãos e os frutos, com o qual alcançou a consagração. Seguiram-se outras publicações de livros de poesia e prosa. Escreveu duas histórias infantis: História da égua branca, em 1977, e Aquela nuvem e as outras,  em 1986.

Recebeu inúmeras distinções e prémios: Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus (1988), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989) e Prémio Camões (2001); grau de Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada (1982) e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1988). Os Municípios do Porto, Oeiras e Fundão distinguiram-no, atribuindo-lhe a Medalhas de Mérito e a Medalhas de Honra.

No estrangeiro, recebeu a Medalha da cidade de Bordéus (1990) e a Medalha da Universidade Michel de Montagne da mesma cidade.

Citações:

“Eu nem sequer gosto de escrever. Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida.”

“Uma palavra é como a nota que procura outras para um acorde perfeito.”

“O poeta é incapaz de conter um segredo, acaba sempre por dizer no poema aquilo que queria guardar só para si.”

“Foi sempre pelos olhos dos nossos poetas que o português viu mais longe e mais fundo.”

“É na nossa poesia que se encontra isso que os políticos tão afanosamente buscam: a nossa identidade.”

“Não há caminhos fáceis para quem é responsável.”

“É possível que a poesia seja ficção, mas eu prefiro pensá-la como Goethe: inseparável da verdade.”

Poesia

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

 

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

 Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

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